A meditação segundo a Tradição Védica (1ª parte)

Estátua de Shiva - Yogamandir

INTRODUÇÃO

Em todo o mundo existem diferentes tradições espirituais onde a prática da meditação tem um papel muito relevante. Assim, a meditação pode ser praticada com diferentes objetivos e ter diferentes abordagens.

Graças à globalização, a meditação tem hoje uma grande exposição em todo o mundo e por isso é um assunto que pode gerar muita confusão. Qual é então o papel da meditação dentro da tradição védica? Primeiro devemos saber que a meditação não serve para:

1 – Mokṣa (libertação, independência): porque mokṣa é a nossa natureza intrínseca, não precisamos de a adquirir. Não é uma questão de adquirir mas sim de reconhecer.

2 – Jñānam (conhecimento): porque a meditação não é um meio de conhecimento para ātma jñānam (conhecimento do Eu). O meio de conhecimento é Vedānta.

3 – Siddhis (poderes): apesar de se aceitar que algumas capacidades possam surgir ou desenvolver-se com a prática da meditação, esse não é o objetivo da meditação. Aliás, estes poderes podem ser usados pelo praticante para alimentar o seu ego e seus desejos, criando uma forte dependência nesses poderes que o desviarão do objetivo último: mokṣa.

4 – Experiências místicas: quaisquer experiências que possamos ter na meditação (por mais extraordinárias que sejam) são limitadas por natureza, têm um início e um fim, enquanto a nossa natureza real é ilimitada. Nunca poderemos ter uma experiência do Ser que somos, porque isso implicaria a existência de uma segunda entidade: aquela que experimenta. Tudo aquilo que pode ser observado, descrito ou experimentado não pode ser aquilo que somos realmente. A nossa natureza real é independente de qualquer experiência.

 

A meditação é então praticada com dois objetivos principais:

1)   Preparar o praticante para escutar o ensinamento de Vedānta;

2)   Assimilar o ensinamento escutado e remover viparīta buddhi (pensamento contrário ao ensinamento).

A meditação como preparação recebe o nome de upāsanam e como assimilação chama-se nididhyāsanam (também conhecida como meditação vedântica). Antes de escutarmos o ensinamento do professor (guru upadeśa śravaṇam) devemos preparar-nos através de upāsanam. O nididhyāsanam entra em jogo após longo período de exposição ao ensinamento.

 

UPĀSANA YOGA

Nos Vedas, dentro do karma kāṇḍa, existe uma importante secção chamada upāsana kāṇḍaUpāsana significa estar ou sentar perto. Āsana significa sentar ou estar e upa, perto. A palavra apenas diz estar perto ou estar na proximidade. Mas estar perto de quê? Não devemos interpretar como estar perto de algum objeto ou pessoa mas sim estar perto de Deus, Īśvara upāsana. As escrituras recomendam fazermos upāsana regularmente. Esta é uma disciplina extremamente importante dentro da Tradição Védica.

Upāsana Yoga é o método para disciplinar e integrar a personalidade. Este é um tópico muito elaborado no Aṣṭāṅga Yoga de Patañjali. Śaṅkarācarya outras vezes chama-lhe Samādhi Yoga.

Upāsana Yoga é um programa para manter a nossa personalidade apta, preparada, pronta para cumprir os puruṣārthas (objetivos fundamentais do ser humano), especialmente mokṣa.

Porque devemos ter uma personalidade disciplinada e integrada? Porque nós temos um grande poder que normalmente é desperdiçado. Aprendendo a utilizar este poder que temos, poderemos canalizá-lo para propósitos construtivos, nomeadamente para mokṣa. Exemplo da represa.

Assim, a disciplina serve para conservar e canalizar os três poderes que todo o ser humano tem ao seu dispor: icchā śakti (poder de desejar), jñāna śakti (poder de conhecer) e kriyā śakti (poder de realizar).

 

De forma geral, as escrituras falam-nos em disciplina a quatro níveis:

1 – Kāyika: física
2 – Vācikam: verbal
3 – Indriyānisensorial
4 – Mānasa: mental

 

DISCIPLINA FÍSICA

O corpo físico é um instrumento fundamental para o ser humano, tanto para o crescimento material como para o espiritual. As escrituras dizem para nunca sermos negligentes em relação ao corpo. Devemos mantê-lo sempre saudável porque sem saúde não poderemos atingir nada. Exemplo da pessoa que trabalha muito, ganha muito dinheiro, mas não tem saúde nem tempo para desfrutar a vida.

 

Exemplos de práticas para disciplinar o corpo:

1)    Acordar cedo
Pequena oração e programação do dia.
Pūjā, meditação, prática de Haṭha Yoga.
2)   Comer bem
Comida vegetariana, fresca.
Comer quando temos fome. Parar de comer quando já não temos fome.
Oração antes de comer.
Pensar naquilo que vamos comer e como chegou até nós. Assim apreciamos a comida que nos chegou e evitamos o desperdício.
Controlo sobre aquilo que comemos.
Comer tranquilamente, sem distrações e de preferência em silêncio.
Não criticar a comida. Recebê-la como um presente de Deus, prasāda.
3)   Dormir bem
Nem muito nem pouco. Evitar deitar tarde e acordar tarde.
Não dormir imediatamente a seguir às refeições.
Os minutos que antecedem o sono devem ser calmos. Oração.
4)   Exercício físico regular
Haṭha Yoga, caminhar, etc. A prática do Haṭha Yoga é excelente para manter o corpo saudável e desenvolver uma disciplina para remover a inércia do corpo.
5)   Jejum
O jejum é uma excelente forma de purificação e de tapas (auto-superação).

 

DISCIPLINA VERBAL

A disciplina verbal é também conhecida como vāk tapas. Na importante escritura de Yoga “Bhagavad GītāKṛṣṇa (o professor) enumera os quatro parâmetros para termos um discurso saudável:

anudvegakaraṁ vākyaṁ, satyaṁ priyahitaṁ ca yat
svādhyāyābhyasanaṁ caiva, vāṅmayaṁ tapa ucyate (BG, XVII – 15)
Aquele discurso não-violento, que é verdadeiro, agradável e benéfico, e o estudo regular das escrituras; isto é austeridade verbal.

 

1 – Anudvega karaṁ vākyaṁ: discurso não-violento

Evitar qualquer forma de ofensa ou crítica pejorativa no nosso discurso. Devemos estar constantemente atentos às nossas palavras, de forma a não magoarmos as demais pessoas. O Svāmi Paramārthānanda diz mesmo para “não dizer à outra pessoa que ela está errada, mesmo que ela esteja errada”. Mas, se tivermos mesmo que dizer alguma coisa, se não houver outra solução, devemos fazê-lo da forma mais subtil e carinhosa possível.

 2 – Satyaṁdiscurso verdadeiro

Nas escrituras é dito: “satyam eva, satyam jayate” – através da verdade empírica chegarás à verdade absoluta. Qualquer mentira afasta-me de Īśvara, do Todo. Sempre que minto causo conflito na mente. Devemos tornar a mente alérgica às mentiras. E as mentiras inevitáveis? Sempre pensamos nas exceções J. Uma mente madura torna as mentiras inevitáveis em evitáveis. Mentiras inevitáveis são evitáveis para uma mente sensível. Evitar também transmitir informações duvidosas e ter conversa fútil, bisbilhotice.

 3 – Priyaṁ: discurso agradável

Linguagem delicada, suave, polida, gentil, cuidada, com baixo nível de decibéis. Imaginar que tudo o que dizemos é gravado e transmitido na TV, em direto.

 4 – Hitaṁ: discurso adequado, que beneficie o outro

Discurso adequado para quem ouve. A pior forma de violência no discurso é falar com uma pessoa quando ela não está disposta a ouvir. O Svāmiji costuma dizer: “sempre que falamos muito temos que observar o outro de três em três minutos para ver se a outra pessoa quer mesmo ouvir-nos ou se já está com o corpo em posição de querer escapar-se”.

 

DISCIPLINA SENSORIAL

Os órgãos dos sentidos são como portas abertas por onde o mundo entra na mente através do som, das formas e cores, dos cheiros, do toque e do sabor. Alguns dos órgãos dos sentidos podem ser temporariamente fechados, mas não podemos mantê-los fechados sempre. Gostemos ou não, a cada momento recebemos novas informações através dos órgãos dos sentidos. E quando o mundo entra na mente é capaz de a perturbar e poluir. A menos que tenhamos uma disciplina sensorial, o mundo perturbará as nossas mentes.

Assim, devemos aprender a evitar tudo aquilo que possa poluir a mente. Disciplina sensorial é evitar uma atmosfera perturbadora. Mesmo as coisas consideradas boas e saudáveis devem evitar-se fazer em exagero. Evitar os excessos e evitar expor-nos a atmosferas não saudáveis é necessário porque os órgãos dos sentidos são portões abertos.

O Svāmi Chinmayānanda costumava dizer: Colocar uma placa: Não entrar sem permissão. Não tornar a mente numa casa de banho pública, para se sujar!”

Esta disciplina sensorial é alcançada através de uma vida de constante atenção e discriminação.

 

DISCIPLINA MENTAL

Originalmente a palavra upāsanam significa meditação. As escrituras definem este tipo de meditação como saguṇa brahma viṣaya mānasa vyāpāraḥ: uma atividade mental relacionada com o Todo manifestado (Īśvara). Assim, para ser meditação, o objeto escolhido para meditar deve estar relacionado com Īśvara, ou seja, deve ter um valor espiritual. Caso contrário, não passa de um mero exercício mental.

Como vimos antes, para que o ensinamento de Vedānta seja bem compreendido e assimilado pelo estudante é necessária uma certa preparação da mente. E é aqui que entra o primeiro tipo de meditação, chamado upāsanam. Uma mente madura e preparada é uma mente calma, com boa capacidade de concentração, com capacidade de expansão para se identificar com o Todo e com valores. Tendo em conta estas diferentes características que devem ser trabalhadas e aperfeiçoadas na nossa mente, devemos praticar diferentes tipos de meditação.

Dentro de upāsanam temos então quatro tipos de meditação:

1º Relaxamento        
2º Concentração
3º Expansão    
4º Valores

 

 

INDICAÇÕES GERAIS ANTES DE MEDITAR

Antes de vermos em que consistem as meditações upāsanam nididhyāsanam, existem certas indicações gerais a serem observadas antes de começar qualquer tipo de meditação. Muitas destas indicações podem ser encontradas em versos dos capítulos quinto e sexto da Bhagavad Gītā:

 

1ª LOCAL

O local onde meditamos deve ser limpo, arejado, calmo, inspirador e retirado (sem pessoas ou animais que possam interferir). Se meditamos na cozinha o mais provável é que surjam na mente pensamentos relacionados com o que vamos comer a seguir J. Uma vez escolhido o local ideal, devemos usá-lo sempre para meditar, ajudando a criar esse hábito na mente. Idealmente, o local onde meditamos deve ser usado apenas para meditar.

 

2ª HORA

A hora ideal para meditar é quando a mente está serena, nem muito agitada nem sonolenta. Esta mente serena é uma mente alerta, mas calma. Recomenda-se então que se medite pela manhã cedo, depois de uma boa noite de sono e antes de começarmos com a azáfama do dia-a-dia. Caso não seja possível meditar pela manhã cedo podemos escolher outra altura do dia para meditar pois, o importante mesmo, é meditar.

 

3ª ASSENTO

Ter um assento, nem muito duro nem muito mole, para sentar na meditação. Evitar sentar diretamente no chão.

 

4ª POSTURA DO CORPO

Posição sentada, de preferência no chão (sobre o assento que escolhemos). Como ensina Patañjali nos Yoga Sūtras,sthiram sukham āsanam”postura firme e confortável. Se cruzamos as pernas para sentar, é importante que os joelhos estejam bem afastados um do outro, de forma a garantir uma maior base para o corpo. Uma vez escolhida a postura,evitamos mover-nos durante a meditação.

Manter o tronco, pescoço e cabeça alinhados, numa linha perpendicular ao chão, sem tensão. Os olhos gentilmente fechados, pálpebras lisas e as mãos pousadas sobre o colo, entrelaçando os dedos das mãos, por exemplo. Se preferirmos, podemos deixar as mãos pousadas sobre os joelhos num outro gesto à nossa escolha.

 

5ª RECOLHIMENTO DA MENTE

Uma vez que não temos várias mentes – uma para meditar, outra para trabalhar, outra para se divertir, uma quarta para se preocupar, etc. – na hora de meditar temos que saber retirar a mente de todas as atividades do quotidiano e trazê-la exclusivamente para a meditação.

Primeiro tratamos de recolher os órgãos de ação (mãos, pernas e pés, fala). Durante o dia, devido à agitação mental, as nossas mãos e pernas mexem-se muito e a boca ainda mais, para falar. Quanto maior a agitação maior é o falatório, chegando ao ponto de falarmos sozinhos. Na meditação fechamos a boca e mantemos as mãos, pernas e pés descontraidamente parados.

Segundo, devemos recolher os órgãos dos sentidos: não ligamos a sons, cheiros, etc.

Terceiro e o mais importante: o recolhimento da mente. Como ensina Kṛṣṇa na Bhagavad Gītā, manter os objetos externos, externos. Isto significa que, durante o tempo que dedicamos à meditação, devemos renunciar ao mundo, às relações que estabelecemos no mundo e aos papéis que normalmente desempenhamos. Ignoramos o mundo exterior e tudo o que isso acarreta. Mentalmente “morremos” para o mundo. Na meditação estamos sozinhos, apenas connosco mesmos.

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